Do fim dos Governos Civis e da demissão de alguns dos ´”últimos governadores” muito se tem falado, mas não percebo a polémica pois esta medida foi uma das “referendadas ” nas últimas eleições. Aliás já tinha sido mais uma das promessas eleitorais, não cumpridas, de Durão Barroso.
Miguel Relvas, aqui, declarou que "os serviços são garantidos normalmente pelos secretários distritais". E ainda que "sem governadores, aquilo funciona, sem os secretários é que não". E finalizou concluindo que aqueles órgãos são "estruturas completamente anquilosadas, sem sentido e sem justificação". Declarações que acredito que muitos de nós realizariam a qualquer mesa do café.
A minha imagem sobre estes órgãos não é muito melhor, e julgo que só existiram até agora porque eram necessários por duas razões:
A primeira porque dava jeito atribuir uma função no Estado, pontualmente, a quem não tinha competência para ocupar um lugar de maior responsabilidade. A atribuição deste “posto político” acabava por ser uma maneira ardilosa de resolver alguns casos crónicos de afectados pelo "Princípio de Peter" nas estruturas partidárias.
A segunda porque a principal responsabilidade desses “funcionários políticos do Estado” era a presença em festas e comemorações, ou seja em correr as capelinhas, como se pode verificar pelo seguinte artigo do Correio da Manhã de 4 de Abril de 2004, o que dá sempre jeito para tornar populares políticos sem competência para outras funções.
UM DIA NA VIDA DO GOVERNADOR CIVIL
Há 21 meses que Manuel Moreira tem uma agenda diária preenchida com mais de 30 pedidos de presença, aos quais ‘apenas’ consegue responder a um terço. Abdicou de fins-de-semana, percorre milhares de quilómetros por mês, comparece aos mais diversos eventos e comemorações, dos mais pomposos aos mais insignificantes. O governador civil do Porto, aos 47 anos, assume até aos limites o papel de representante do Governo
09h00 Manuel Moreira chega ao Palácio dos Pestanas, à Praça da República, onde está instalado o Governo Civil. Começa o dia meia hora mais tarde com três audiências, o que acontece com pouca frequência: “Não tenho tempo, as solicitações são muitas, algumas de última hora, não consigo organizar uma agenda semanal que me permita dedicar um dia regular para audiências, o que é lamentável.” A Associação de S. Tiago de Rebordões expõe a sua intenção em criar um lar de Terceira Idade para o qual solicita apoio económico; a Misericórdia do Porto vem disponibilizar um espaço nas Antas para instalação de uma esquadra da PSP; a Liga Contra o Cancro dá conta das suas iniciativas e anseios.
10H55 A presença na Junta de Rio Tinto, para a inauguração da unidade local de Inserção na Vida Activa (UNIVA) está marcada para as 11h00. Não há tempo a perder – “há gente à minha espera, é preciso respeitá-los”. O percurso não é longo e Gomes, o motorista, tem mão leve no volante e pé pesado no acelerador. 11h06, o Mercedes E270 metalizado pára à porta da Junta, Gomes apressa-se a abrir a porta ao ilustre passageiro, recolhe-lhe o sobretudo, ritual que se repetirá ao longo do dia e da noite. Alívio visível no grupo que o aguardava: já chegou o governador civil, a cerimónia pode começar. Sete oradores apresentam o projecto, trocam elogios e competem em eloquência. Manuel Moreira, em dez minutos, enumera as preocupações do Governo quanto ao desemprego, valoriza o poder local, não se esquece de referir a “grande cidade de Rio Tinto”, a “bela freguesia de Rio Tinto”, e o “dinamismo do presidente da Junta”. São 12h10 desculpa-se pela pressa, não há tempo para degustar o Porto de Honra, há que rumar a Ramalde, onde é esperado desde o meio-dia para assistir à assinatura de um protocolo de parcerias entre a Junta local e a Segurança Social.
“Geralmente falo no final e quando há muitos oradores pouco fica por dizer. Vou tirando notas e procuro acrescentar algo de novo”, diz-nos, antes de expor com paixão e pormenor as competências do cargo. Lembra as cerca de 4 500 associações que integram o distrito ou a diocese do Porto, insiste em valorizar os “pequenos acontecimentos”.
12H20 O atraso não é notado. Afinal, a cerimónia está tacitamente marcada para as 12h30. “Ó Manel, estás bom?”, saúda Manuel Maio, o presidente da Junta de Ramalde. A familiaridade entre os dois decorre das afinidades pessoais, cimentada em quase duas dezenas de visitas oficiais em pouco mais de um ano e meio. O tratamento torna-se cerimonioso com a abertura do 'acto solene'. Os discursos rivalizam, mais uma vez, em elogios mútuos. O governador prefere esmiuçar conceitos de modernização e descentralização. No final, o relógio é magnânimo, há tempo para um retemperador cálice de Porto.
13H05 A solicitação que se segue está marcada para as 15h00, no Instituto de Medicina Legal, para a sessão de abertura do curso superior e um outro de pós-graduação. Hoje, Manuel Moreira prescinde da refeição ligeira no bar do Governo Civil ou da sanduíche e iogurte no seu gabinete. O Guarani, em plena Avenida dos Aliados, foi recentemente remodelado. Está bonito, elegante, segue as pisadas do seu irmão Majestic. Há muitos temas para conversar. “Boas recordações são as vitórias de Sá Carneiro e Cavaco. Decepções, a constatação que muitos políticos ocupam cargos em vez de desempenhar funções.” Confessa que guarda recordações amargas da sua candidatura à Câmara de Gaia, ao perder para o socialista Carvalheiras em 1993. Admite que o contexto era desfavorável, o cavaquismo dava sinais de desgaste, o PSD não estava unido no concelho, o protagonismo do candidato à assembleia municipal, o empresário Salvador Caetano, não ajudou, e a ideia de um ferrocarril, entre Porto e Gaia “vendida” pela Siemens, atirada em desespero de causa no último dia da campanha perante sondagens pouco animadoras funcionou ao contrário. Dirigimos a conversa para temas mais pessoais, o casamento aos 35 anos, o nascimento da Ana Sofia, há nove anos…
14H50 Manuel Moreira aproveita a breve viagem para estudar o convite, tirar notas mentais para qualquer eventualidade. “Muitas vezes não sei se vou para a mesa, se vou intervir ou não. Como o secretário de Estado da Justiça não vem, apesar de anunciado, se calhar esperam de mim algumas palavras.” O governador já não está tão descontraído, a medicina legal não será, porventura, tema onde se sinta à-vontade.
14H58 Confirma-se: o governador vai falar. Após breve introdução de responsáveis da instituição, a palavra é passada ao “insigne representante do Governo”. O início é, como sempre, hesitante, mas a retórica vai em crescendo, desemboca em terrenos familiares e o discurso torna-se vivo e fluente. Segue-se uma conferência de uma hora sobre o passado, presente e futuro da medicina legal, estoicamente acompanhada com respeitosa atenção.
16H30 Já o Mercedes se dirige para Arcozelo, Gaia, para a visita às futuras instalações da Federação do Folclore Português. Chegámos dez minutos antes da hora marcada. O motorista Gomes, homem experimentado, faz o último quilómetro em marcha lenta: se a pontualidade é preocupação do governador, chegar com antecedência não é de bom tom.
17H00 O edifício em construção é faraónico. Pretende ser o futuro Centro Cultural do Folclore Português. Na prática, é um imenso elefante branco. A primeira pedra foi lançada há mais de 15 anos, as obras estão paradas há quase dois. Já foram gastos 425 mil euros, quase dois terços suportados pelo Estado. Agora, são precisos mais 750 mil, adivinha-se mais uma dezena de anos de trabalho pela frente. O governador faz uma intervenção para os jornalistas da imprensa regional. Promete uma ajuda de cinco mil euros e toda a ajuda possível, “dentro do meu modesto magistério de influência”.
17H50 No percurso de regresso, não interrompemos a sua entusiasmada peroração que vai do papel das colectividades na participação cívica dos cidadãos aos fogos florestais, protecção civil, mas também ao certificado de qualidade atribuído ao Governo Civil depois da reorganização dos serviços internos e de atendimento ao público. A custo, introduzimos o tema do aborto, voltando a temas mais pessoais. Manuel Moreira tem um passado activo em actividades da Igreja, foi catequista, alimentou a ideia de ser missionário leigo em África, estamos curiosos. “A lei está bem como está, só não é observada; sou pela descriminalização.” O tema não será dos mais apetecidos, e vira, com pouco a propósito, para a extinção dos governadores civis prometida por Durão Barroso. Afinal, houve um “repensar” da ideia, em revisão constitucional poder-se-á propor a criação do “representante do Governo no distrito”, uma outra designação para o mesmo papel.
18H15 Regressamos ao Palácio dos Pestanas. Há despachos para trabalhar, fazemos uma trégua de uma hora.
21H00 O jantar na Ribeira não pôde ser apreciado devidamente. Há que rumar ao Colégio dos Órfãos, onde às 21h00 é lançado o livro das crianças do 6º ano sobre o 31 de Janeiro. A aluna que anuncia o protocolo, diz que “o sr. governador civil vai falar em primeiro porque depois tem que se ir embora”. Risos na assistência.
Após uma breve alocução sobre revoluções, a paz, e “as crianças que são o melhor do mundo”, há que partir rapidamente para o auditório municipal de Gaia, onde vai decorrer às 21h30 a tomada de posse dos dirigentes da Federação das Associações de Pais. É a visita mais “importante” do dia, Manuel Moreira vai ser homenageado e elevado a sócio honorário da federação.
21H40 A sessão só irá começar pelas 22h15, pois, como explica um responsável, ainda faltam dois “caça-grossa”. Manuel Moreira está como peixe na água. É a sua terra, é a sua gente, desaparece por entre pequenos grupos de convivas. Um dos tais 'caça-grossa' é Luís Filipe Meneses, presidente da autarquia.
Desta vez os discursos são bem mais longos, rebuscados, seguidos com sofrimento pela maioria dos assistentes. Até que intervém Filipe Meneses. Em tom 'blazé', traça um quadro negro sobre a crise de valores a nível mundial, da Europa, do País, de Gaia, questiona a falta de soluções sociais e económicas. O representante do Governo não está apreensivo, conhece os discursos de Meneses de ginjeira, está farto de saber que acabam “bem”.
E o discurso acaba “bem”, com sinais de esperança, “porque aquele jogador de futebol sorriu dois segundos antes de morrer, porque é necessário acreditar e ter esperança, mesmo que não saibamos o que se vai passar nos próximos dois segundos”. O final é apoteótico com a entrega da placa ao novo sócio-honorário sublinhada com efusiva ovação.
01h20 Pedroso, Gaia, fim dos trabalhos, à porta da residência do governador. O dia seguinte é sábado, mas adivinha-se cansativo. De manhã, concurso de montras e memória aos mortos de 31 de Janeiro no cemitério do Prado do Repouso. De tarde, saída para Bragança, onde Durão Barroso encerra mais um evento do Eixo Atlântico. Como à noite há jantar e programa musical na inauguração de um grande centro cultural, o regresso só acontecerá pela madrugada, permitindo escasso descanso pois domingo há visitas de manhã, prometidas às freguesias de Avintes, do Olival…. “É cansativo mas é necessário. A família sofre, mas já está conformada. Levo daqui uma rosa para a minha mulher. Gostou de passar o dia comigo?”
MOTORISTA SOFRE…
Ser motorista do governador civil do Porto é o cargo menos invejado por todos os que conduzem personalidades da administração pública. Gomes, Nunes e Rocha fazem turnos de uma semana ao volante do Mercedes do governador, repartindo desse modo a árdua tarefa. A viatura é de 2001, mas já ultrapassou os 160 mil quilómetros. “Há fins-de-semana que fazemos 800 a mil quilómetros, e isto no interior do distrito”, confidencia Gomes, 50 anos, o experiente motorista da PSP destacado para aquele lugar há quase três anos. Já conduziu outras figuras públicas, mas não faz comparações. Afável, discreto, diligente, possui um curso de segurança pessoal da Polícia, anda armado, integrou o extinto pelotão de segurança da PSP do Porto. Por Manuel Moreira nutre um profundo respeito, mas prefere guardar para si as apreciações mais pessoais. “No Governo Civil, somos uma família”, diz. E os segredos de família são sagrados, pois claro.







